terça-feira, setembro 13, 2011

Um texto sobre o fascínio infantil por violência, terror e guerras.


Provavelmente vocês já devem ter percebido que existe um certo fascínio infantil por violência, terror e guerras.

Quando eu era pia e ia a uma locadora de filmes, a primeira coisa que eu fazia, era ir até a estante dos filmes de terror, guerras e suspense. Filmes sobrenaturais sempre me atraíram, mas não eram o “the best of”, o que eu queria ver mesmo era sangue. Procurava entre as fitas a capa cujas imagens tivessem a maior quantidade do líquido vermelho. Vai dizer que não era bacana demais ver aquelas maquiagens que simulavam cortes e buracos na pele? (e pensar que hoje, quando eu vejo sangue, passo mal hahaha!!)

Eu acho que isso não acontecia com todo mundo, mas era assim comigo. Se todos somos vítimas dessa estranha atração, está explicada a origem dos estranhos jogos infantis que envolvem violência gratuita entre moleques de doze anos. 

Sem a menor sombra de dúvida você já deve ter visto e até mesmo participado de uns joguinhos desse tipo, onde quinze ou mais crianças decidem quatro ou cinco regras que apenas "legalizam" a troca de catiripapos, dando algum tipo de pretexto para o ato de espancar o próximo. Se isso não aconteceu com vocês, eu devo ter tido os amigos mais doentes e psicóticos do mundo, amigos esses que deveriam estar até hoje pagando por ajuda psicológica.

Quando eu era um pia desocupado criança, havia duas brincadeiras (se é que posso chamar aquelas agreções de brincadeiras) que atraíram minha atenção muito mais do que o pega-pega ou esconde-esconde - com exceção às ocasiões em que a Franciele, uma irmã gostosa de um dos amiguinhos do bairro, brincava com a gente. Não me entendam mal, ser agraciado com o direito impune de encher um desafeto de porradas é uma beleza, mas não se equivale à diversão se se espremer pra caber num lugar apertado junto com a Franciele, sob a convincente alegação de que "esse é o melhor lugar, eles nunca vão achar a gente aqui, hehehehehe!" .

Mas então, vamos as porradas.



Uma das brincadeiras mais famosas se chamava inocentemente de "selaço". Os mais ingênuos de vocês poderão supor logo de cara que o jogo se tratava de grudar selos de cartas uns nos outros, mas isso apenas prova que sua criatividade para violência é muito limitada, ao ponto de aceitar sugestões por causa do mero nome da brincadeira. Selaço era muito mais complicado que isso. Vamos aos fatos...

Selaço era um jogo simples, a despeito de que para algo ser considerado um "jogo" deve haver algum sistema de pontuação ou pelo menos algo parecido com isso. Por definição, Selaço não era um jogo, se parecia muito mais com um método de tortura. A brincadeira era simples e consistia de apenas duas etapas simples:

- Pegar uma bola de futsal.

- Correr até o indivíduo mais próximo e dar um chute na bola, fazendo com que ela grudasse nas costas do animal. 

Só isso. Incrível como algo tão simples conseguiu mandar tantas pessoas pra diretoria da escola. Havia variações nas regras básicas, mas a ideia principal nunca foi alterada: corra pra cima de alguém e projete partes do seu corpo (mão, pé, cabeça, bunda, vai ao gosto do freguês) com violência contra o infeliz. 

Ninguém estava imune, pois o privilégio de participar da brincadeira era de todos, quer eles desejem brincar ou não. Era praticamente uma emulação da democracia adulta a qual nos acostumaríamos um dia, como o voto obrigatório. GENIAL!!

A única forma de se excluir do jogo era sendo um ótimo ator e fingir que estava doente para poder ficar em casa. Sendo impossível passar um ano inteiro em casa, aqueles que optavam participar das aulas tinham uma única forma de se salvar das cacetadas: Qualquer indivíduo que desejasse sentar a bunda na cadeira para prestar atenção nas aulas deveria dizer, em alto e bom som para que todos ouvissem, "DESISTO". 

Nunca saberei por que escolheram essa palavra. O que sei é que esse verbete mágico salvou os órgãos internos de muita gente. Digo isso porque em algumas ocasiões, o som resultante de uma bolada nas paletas dava a impressão de que os pulmões do sujeito foram atingidos pela mão cruel do indivíduo que administrou a punição naquele que foi burro o bastante pra esquecer de "pedir penico" pra sentar e estudar (que porra de frase longa, que horror).


Eu estudava em um colégio publico chamado “Instituto Estadual Rui Barbosa”, em São Luiz Gonzaga/RS, e me lembro de uma ocasião em que um garoto entrou na sala durante o momento da oração das extintas aulas de “Ensino Religioso” (eles nos obrigavam a estudar isso, dá pra acreditar?). Todos (ou quase todos) de cabeça baixa, falando pra Deus algo que ele supostamente já deveria saber mesmo, quando o moleque sentou-se na cadeira, abriu a mochila, puxou uma bola e começou a desferir golpes em todos os que ali estavam. A classe inteira abriu os olhos; a porrada tava rolando solta, o moleque recém chegado na classe estava debruçado no chão, e seus cadernos e livros espalhados pelo piso da sala. Depois de alguns minutos de porrada o carrasco voltava silenciosamente pra sua cadeira, com um olhar de "missão cumprida" no rosto, provavelmente pensando em contar vantagem sobre o fato de que ele foi o primeiro a baixar o sarrafo na galera.

Ahh: Tinha outra brincadeira violenta. Mas esse post tá grande demais.

Ahh ²: Fiquei sem postar por alguns dias (quase um mês) porque eu estava de mudança e cheio de trabalhos da faculdade. Que se foda!


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